Vovó querida,

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Nunca imaginei escrever uma carta para você. Mas hoje, me veio uma súbita urgência para fazê-lo. Que engraçado… quando éramos crianças escrevíamos sempre para o vovô, que era o cara das leituras, que nos sabatinava e queria que sempre aprendêssemos mais; nunca escrevíamos pra você. Perdão por isso. Da forma que creio, você não lerá, nem saberá que lhe escrevi; mas gostaria, se pudesse, de lhe falar as palavras que agora derramo no papel.

Logo cedo hoje, minha prima se lembrou da sua mania de chamar o nome de todos da família, antes de acertar o nome de quem você queria. Comentei que me lembrava disso também, mas que a minha recordação mais forte era de agora, no final, que você já não sabia as palavras mesmo e chamava a todos de minha menina ou de meu menino. Minha prima entendeu, mas disse que as memórias dela eram de coisas engraçadas com você. Foi quando percebi que ela teve uma avó e eu outra; embora sejamos primas. A razão é porque você cuidou de minha prima na infância dela. E eu ajudei a cuidar de você na sua velhice.

Ah, vovó, como era bom rirmos juntas quando eu lhe dava banho, trocava a roupa, penteava seu cabelo branquinho e macio, ajudava a comer, ajudava a caminhar. Sua cabeça sempre tão lúcida, tão esperta, tão à frente de seu tempo, apenas seu corpo que já não respondia. Lembro sempre, conto para os outros e dou risada do dia em que você me disse para sempre usar camisinha, para fazer amor de forma segura. Que velhinha incrível você foi!

Mas também, como era bom quando você erguia os braços e pedia um abraço e um beijo. Era a minha velhinha frágil que precisava de um carinho. Eu gostava disso porque quando criança sempre achava você brava, nervosa; embora minha prima se lembre de coisas engraçadas. É verdade, me recordo de quando você ainda estava bem, cozinhava coisas incrivelmente deliciosas pra nós. Era sua forma de demonstrar atenção, amor. Havia sempre latas e latas cheias de biscoitos caseiros esperando por nós, na sua casa. Nos natais, você confeccionava bonecas e roupas para as netas. Como era bom! Depois, já maiores, você dava dinheiro. Assim, compraríamos o que quiséssemos.

Sim, me recordo dessas coisas, mas quer que eu diga? Sinto falta de você. Muita. Mesmo quando você já estava acamada e se mover era difícil. Mesmo quando já víamos que a luz da vida estava se apagando. Era bom saber que você estava no quarto ao lado. Era bom passar lá pra ouvir sua respiração, dar um sorriso, perguntar se estava tudo bem, dar um beijo. Me perdoe se fui menos vezes do que deveria. A gente não tem ideia da falta que uma pessoa querida faz, antes que ela se vá. Sinto sua falta, vó. Falta da sua presença. Falta do seu sorriso. Todos sentimos. Mas lhe pedi antes de sua partida para descansar. Sim, você precisava; a avó guerreira que na infância e adolescência criou os irmãos e trabalhava na roça. Depois, criou os filhos trabalhando arduamente. Mais tarde, criou alguns netos e tudo que nos pedia era que respeitássemos o horário de suas novelas e do Sílvio, aos domingos. Já era hora. Já era tempo, pois você estava tão fraquinha, tão doente. Sofrendo.

Sabe, vó, tenho plena certeza de que sua vida foi mega bem vivida. E embora tenhamos muitas saudades e memórias, talvez, a nossa maior preocupação seja mesmo se honraremos uma vida tão intensa quanto a sua. Se levaremos avante o seu legado de mulher guerreira, decidida, corajosa. Tenho saudades disso tudo e, também, da minha velhinha frágil.

Te amo, vovó Maria, te amo muito! Saudades imensas,

da sua menina.

vovó querida. já velhinha, de cabelinho arrumado, como gostava.

vovó querida. já velhinha, de cabelinho arrumado, como gostava.

(Texto postado também em temgenteescrevendo.wordpress.com)

Livre

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E quem era ele afinal? Um encosto. Uma caixa de papelão em dia de chuva. Alguém do tipo “chuta que é macumba”. Sendo politicamente incorreto, é claro. Na verdade, uma pessoa que passara por sua vida, e definitivamente, não deveria ter passado. De repente ela ficou feliz ao pensar assim.

Final de ano sabe como é… sozinha há algum tempo, teimava em pensar e repensar no último affair. Prometera-se  não fazer isso, mas acabara não resistindo e fuxicara a página dele no facebook. Lá estava ele em fotos sorridentes com a nova namorada. E ela? Sempre se angustiara questionando o que dera errado. Por que ele não a amara? Por que a trocara por aquela fulana? Por que não dera certo? Por quê? Por quê? E ainda se perguntava se gostava dele ou era apenas o fato de estar só que levava seu pensamento ao passado. Realmente era passado. Quantos anos fazia mesmo?

Depois de ver as fotos, desligou o computador e foi dormir. Mas não conseguiu. Rolou e rolou na cama. As imagens não lhe saiam das retinas. Odiou-se por ter sucumbido à curiosidade. Mas aí, num insight de felicidade enxergou a pessoa que era. Bonita, elegante, sincera, generosa, educada, inteligente, dona de um charme incrível. E modesta, lógico. Então relembrou quem ele não fora: presente, seguro, decidido, amigo, verdadeiro, companheiro. Está bem, admitia, isso já lhe ocorrera outras vezes, mas daquela vez a ideia foi mais forte; como se o fato de ter pensado tanto no assunto lhe desse firmeza para finalmente expurga-lo de seu coração. Foi aí que entendeu que ele fora um encosto. Alguém que não quisera ficar de verdade, mas que por anos preenchera um lugar pelo simples prazer de tê-la à disposição. Uma caixa de papelão em dia de chuva, porque era um fardo difícil de carregar. Tanto no tempo em que estiveram juntos, quanto nas memórias que sobraram. E uma “macumba” porque só podia ser um feitiço horroroso que alguém lhe pusera. Sendo assim, nada mais restara. Infeliz ou felizmente. Agora era partir pro abraço. O tempo que se dera de luto terminara. Agora era tempo de lavar sua alma, vestir sua roupa mais bonita, fazer a maquiagem mais linda e abrir-se para viver um novo amor.

E viva os novos começos! leveza1

Dia dos namorados

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Durante os anos que estiveram juntos, o que tinham poderia ser chamado de tudo, menos de relacionamento. Ela, apaixonada, o amando loucamente, esquecendo-se de amar a si mesma, sonhava que um dia ele retribuísse seu afeto. Ele, pragmático, descolado sentimentalmente de tudo aquilo, tinha nela apenas um passatempo.

Curiosamente ficaram bom tempo juntos, mas até então, não haviam vivenciado um dia dos namorados. Não que ela se lembrasse. As discussões e o distanciamento sempre aconteciam em finais de maio, e eles reatavam lá pra agosto. Ela conjecturava sobre isso, quando pensou que seria dia dos namorados e de certa forma estavam juntos. Romântica como era pensou se não poderia cozinhar pra ele, fazendo um jantar bem gostosinho. Depois bebericariam um vinho, fariam amor e quem sabe até, ele baixasse a guarda e acordassem juntos? No fundo, porém, estava cansada. Sempre que sugeria algo com mais intimidade ouvia um não. Acabara acomodando-se e acostumando-se às migalhas ofertadas por ele. Decidiu não se machucar mais uma vez e deixou a ideia para lá.

No dia dos namorados, nenhum telefonema especial, nenhum sms, nada. Tudo bem. O que ela quereria do tipo de “romance” que vivia? Nada mesmo. Ouviu o dia inteiro as colegas de trabalho comentando o que fariam. Ficou quieta. Faria o de sempre. Saiu do trabalho, passou na academia, foi pra casa, tomou banho, vestiu sua camisolinha, ligou a tv, cogitou o que comeria. Foi quando o interfone tocou. Era ele. Chegou de cabelos molhados, trazendo uma pizza quentinha e perfumada, uma caixinha de morangos, uma lata de leite condensado e chocolate em pó. Sugeriu que enquanto eles comessem o micro-ondas daria conta do brigadeiro. E também que sentassem no tapete da sala, como num piquenique. Ela achou engraçado e ficou feliz com a surpresa. Ele nunca fizera nada semelhante. Mas aprendera, calo de todo aquele tempo, a não demonstrar muito a sua alegria.

Desfrutaram da pizza sem jogos de sedução. Riram e falaram bobagens como nunca dantes haviam feito. Na verdade, naquela refeição foram amigos como nunca haviam sido. Ela descobriu facetas dele que nem julgava existir, riu de piadas bobas e sentiu como se uma máscara pesada que ele usava tivesse caído. Era algo novo. Depois da sobremesa, jogaram uno, enquanto ele a trapaceava e ria dela todo o tempo. Ela não se importou. Mesmo.

Lá pelas tantas, ela disfarçou um bocejo e ele se levantou para partir. Alegou ser tarde e o trabalho no dia seguinte, o que era verdade. Algum lugar dentro dela estava bobo, ele não quisera a segunda parte da sobremesa. Ele estivera ali apenas por estar.

Levantaram-se do chão e ela o levou até a porta. Embora ele soubesse o caminho de cor… Engraçado que, invariavelmente, quando ia embora, ele sempre lhe dava um beijo fraterno na testa. A princípio ela odiara aquele gesto. Queria um beijo gostoso, promessa de um novo encontro, agradecimento pelo tempo desfrutado juntos, saudade… Mas depois, alguém lhe disse que beijo na testa era sinal de carinho e respeito e passara a achar bonito o gesto dele. No entanto, tudo estava tão inusitado que a despedida foi diferente. Ele a aconchegou firme e lhe deu um beijo profundo. Não foi um beijo de tesão, de pressa, de quero… foi um beijo de quem conhece, comemora, e de alguma forma compartilha.

beijo

Boba como era correu até a janela para vê-lo partir. Ficou na penumbra, atrás da cortina, vendo ele ir embora assobiando.

Rancores e amores

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Fulana Tolinha era do bem. Uma pessoa boa, não cem por cento, porque ninguém é. Mas era gentil, generosa, preocupada com o bem-estar dos amigos. Também, carente por aceitação, às vezes deixava passar uma ou outra maldadezinha que lhe faziam, relevava e pronto. Seguia sendo mãezona. Contudo, parece que sempre há um momento em que o copo transborda… foi assim:

Primeiro, durante o período da faculdade fez um amigo. Durante anos acreditou que ele era como um irmão. Quando ela entrou na vida profissional, sempre o presenteava de forma especial. Até o belo dia em que ele lhe roubou. Ou melhor, furtou. Aquilo foi um golpe, nas costas, claro.

Depois, anos mais tarde, a vida já não lhe parecia mais tão simples, muita coisa dera errado. Entrou em depressão, fez uso de medicamentos pesados e no auge da merda que vivia, por msn, conversou com uma amiga que também imaginava ser uma irmã. A bonita, de longe mesmo, mandou muitas ‘verdades’, coisas que provavelmente, eram mais verdades para quem falava do que para quem lia. Palavras que não se diz a ninguém, nem por falta de educação.

Tempos depois, quietinha no canto dela, se refazendo, recompondo a vida, coração partido por relacionamentos errados, surgiu o Zé. Claro, sempre tem que ter um sujeito. Joana, uma amiga comum a ambos quis ser o cupido. Na realidade, foi ela quem veio contar: “Fulana Tolinha, Zé está a fim de você!”. E ficou fazendo um leva e traz, arrumando situação, essas coisas. Contudo, o troço não andava. A tentativa de romance não decolava. Fulana Tolinha era tolinha, mas só até a página 2. Ela entendeu que Zé era um bobão e só a queria à disposição. Só que havia um problema, um não, dois. Zé era muito insistente e a tal da amiga queria estar bem com os dois. Aí, convidou o rapaz para um almoço em sua casa, e ele fazendo papel de bom moço, pediu pra chamar Fulana também. Joana chamou. Tolinha, que de tolinha já não tinha muito, disse que não iria e se explicou, pediu para que a ‘amiga’ evitasse convites assim no futuro. Esse foi o erro dela. A beleza de amiga disse que era tudo amizade. Fulaninha se enfureceu…

Olha, quando uma fulaninha tola se encrespa depois de tanta ira guardada, o resultado não é muito bom. No dia do almoço, ela apareceu. “Surpresa!”, foi logo dizendo. “Mudei de ideia, pois estava morrendo de vontade de ver vocês.” “Quem bom!”, disse a pretensa amiga se aproximando. Rapidamente Fulana da Fúria pegou a sujeita pelos cabelos, puxou, puxou e puxou. A outra, pela surpresa, pouco se defendeu. Quem estava por perto acudiu e separou as duas. Foi Zé quem segurou Fulana. Ela disse “pode me soltar. Não vou bater mais nela. Isso é pra você aprender, Joana, que de amigo a gente cuida. Não existe essa história de amiga especial, e me colocar na berlinda com quem me quer mal.” Então se virou e deu dois bofetões em Zé. “E isso é pra você, seu Zé bobão, seu Zé mané, seu zem noção. Se você não me queria por que foi mexer comigo?”

E foi embora. Feliz. Vingada.

Eu sei. Eu sei. Violência não leva a nada. E logo eu que sou tão pacífica não deveria publicar uma história assim, neste blog do bem. Mas é que uma boa traulitada desopila… ah… e como.

Livremente inspirado em Boa-fé de Mônica Veiga

O impasse…

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Ela trabalha há muitos anos na mesma empresa. Não sei se teve sonhos, ambições, se em algum momento questionou o sistema. Não sei. Tudo que sei é que por necessidade ficou. Foi ficando. Começou em um setor, foi sendo remanejada pra outro, depois mais outro e assim foi. Nessa brincadeira, viu a vida passar pela janela. Minto. A empresa não tem janelas, então, lhe restou ver os dias passando ao sair do trabalho e ao levantar de sua cama no dia seguinte.

Imagino que tivesse seus sonhos sim, mas por não poder desfrutá-los como queria, foi adiando, adiando. No meio disso tudo, uma certeza cresceu em seu peito: “vou  me aposentar um dia”. E foi contando os meses, os dias, os minutos. Quando a contagem cessou, agendou uma entrevista no INSS, reuniu seus documentos e lá foi. Um colega mais antigo na empresa cansou de lhe dizer que não fizesse isso, o dinheiro que receberia seria pouco, perderia isso, aquilo e aquilo outro. Vi muitas vezes, ele repetindo o mesmo discurso. Ela sorria, balançava a cabeça e obstinada como ela só, deixava quieto. Então, foi e conseguiu a aposentadoria. Descobriu um erro de cálculo aqui outro ali no processo. Mas no final, alcançou parte do seu sonho.

Mas agora, eis o xis… aposentou-se pelo INSS e a empresa não a demitiu. Talvez espere que ela peça para sair. Não sei. Talvez a contagem deles seja diferente. O que sei também é que dia após dia ela tem aparecido para cumprir com seu dever. Ela gosta? Não. Tem 50 e poucos anos, cuida da mãe, corre e possui um cachorro lindo que é trêbado de amor por ela. Quer cozinhar, correr livre por aí, fazer cursos de artesanato, viajar se der e coisas do tipo.

Hoje conversamos. Disse que vou jogar e ganhar na mega-sena e dar a ela seiscentos mil reais. Perguntei se ganhando esse dinheiro, ela pararia de trabalhar. Rapidinho me respondeu: “não. Não vou pedir pra sair. Trabalhei muito tempo aqui e quero o que é meu por direito.”

O que posso dizer? Ela está errada? Definitivamente é difícil julgar e mais difícil ainda responder. A única coisa que posso fazer no momento, é continuar torcendo para que ela realize o seu sonho.

Pepito

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*** Encontrei este texto em meus guardados. Devo tê-lo escrito no final de 2008, mas não sei o motivo não foi publicado. Apesar de algumas informações serem antigas, achei que valia a  pena compartilhá-lo.

 

Pepito é o nome que dei a um cachorrinho que não é meu. Pode parecer esquisito, eu sei. Mas deixe-me explicar…

Moro em um bairro de classe média baixa. Talvez menos que isso. No final de uma das vias principais, há uma casa de ração. Em outro local, a loja poderia se chamar petshop, mas aqui ela é um lugar no qual encontramos ração para animais, do tipo popular e não Premium, e também outros artigos como vassouras, cloro e botas de borracha.

pinscherNão me recordo exatamente quando foi que vi Pepito a primeira vez. Não lembro se foi no mês de outubro ou novembro. Só sei que já faz um bom tempinho. Da primeira vez não me ocorreu à ideia de dar um nome a ele. Vi apenas um cachorrinho minúsculo, solitário, dentro de uma gaiola. Ele é um pinscher nº 1, segundo me informou o senhor que cuida da loja. Parei alguns instantes para brincar com o bichinho. E como solitária que sou, fiquei feliz com a alegria dele que rodopiava em busca do próprio rabo, parando sua brincadeira solitária para me retribuir as festinhas. Perguntei se estava à venda. O homem me respondeu que sim. O preço? R$ 150,00. Achei caro. Não concordo com a venda de animais e não tenho esse valor para dar em um bicho de estimação. Também, não gosto de pinschers. Apenas pensei. Nada disse. Fui embora.

Dias depois tornei a passar pela loja. Mexi com o cãozinho mais uma vez. Desta vez, o gato da loja estava sobre a gaiola com o rabo dependurado e o cachorro brincava com o rabo do gato. Tornei a passar outras tantas vezes… entrar, brincar, sair… pouco antes do  natal me dei conta de que possivelmente o cachorro não será vendido. Veja… numa das laterais do bairro há uma comunidade. Por todo o bairro as casas são simples, de trabalhadores. Quem teria R$ 150, 00 para dar em um cachorro típico de zona sul do Rio de Janeiro?

Em alguns segundos, me vi entrando na loja, negociando, e se ele vendesse por R$ 100,00 eu levaria Pepito. Foi aí que o cachorro ganhou um nome. Pelo menos para mim. Quando o nome nasceu, ri. Pepito? Por que Pepito? De pequeno. Pequetito. Pepito. Ri de novo. Na sequência imaginei o cachorro correndo pelo meu apartamento, fazendo xixi pelo chão, rasgando o que encontrasse pela casa e roendo as pernas das minhas cadeiras. Não. Não quero Pepito.

Mas coitado do bicho. Passaria o resto da vida trancado numa gaiola minúscula? E detalhe, ele cresceu. Nem sei mais, se ele é um pinscher nº 1… Tá bem… contra-argumentei comigo mesma. Fico com Pepito. Será uma alegria muito grande ser recebida todos os dias ao voltar do trabalho, por ele. Será muito legal, amarrar uma coleira e passearmos juntos por aí. E como seria bom vê-lo tomando vento no focinho, enquanto andasse comigo de carro. E a noite, eu colocaria uma caminha para ele, perto da minha e dormiríamos ‘juntinhos’. Mas e durante o dia? Eu iria trabalhar e ele ficaria sozinho. Coitado. Solidão por solidão, ele já estava acostumado com a loja. E na loja, durante o dia as pessoas mexem com ele, e o gato está sempre por perto…

Pensei de novo, está bem. Nada de cachorro. Nada de Pepito. Mas eu bem que podia fazer a boa ação de levá-lo e dar de presente de natal para Sophia. Minha sobrinha de nove anos. Ela é louca por gatos, mas filha de um pai que só gosta de cachorros. Então, um pinscher talvez fosse um cachorro-gato… quem sabe? Seria um excelente presente de natal. Ela ficaria louca de felicidade, pensei. E no instante seguinte, visualizei o porcelanato branco, as paredes alvas e toda a clareza da casa da minha irmã. Mãe da minha sobrinha. Bem… não. Nada de Pepito para Sophia.

Que coisa maluca… tantas ideias para uma negociação que nem aconteceu. Para um cachorro que nem chegou a ser meu. Desisti de Pepito sem tê-lo, sem ao menos negociar por ele. Mas não deixei de pensar nele. Paixão? Talvez.

Esta semana, passei pela frente da loja de ração. Olhei. Fazia um tempo que eu não olhava dentro dela. Quem estava lá? Pepito. Na gaiola. Ganindo. Uivando. Chorando mesmo. Estava em pé nas patas traseiras, focinho entre as grades de cima, fazendo um barulho danado. Entrei. Conversei com ele. Não me deu um pingo de bola. Continuou o seu lamento. A gaiola está bem menor agora. Pelo visto, ele continua crescendo.  Falei mais um pouco. Nada. Só barulho. E nos olhinhos dele dor. Está doente? Não sei. Não perguntei. Medo de me envolver, talvez… ou ele tenha se dado conta da vida besta que leva e está deprimido.

Fui embora. Mas não pude deixar de pensar nos milhões de Pepitos que conheço por aí… pessoas solitárias, tristes-alegres, em gaiolas minúsculas. Presas por situações, desejos, intenções, sonhos frustrados, escolhas, ideologias, loucuras, utopias. Pessoas presas em corpos que não são os seus, em vidas que não são as suas, em papeis que aprenderam a representar mas que não lhes cabem. Pensei também em Pepitos que nem sabem que estão presos… em relacionamentos falidos, na falta de perspectivas, ou apenas na maciez da dor comum já amiga.

Pepito…

 

Convite

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O ano não foi muito fácil. É provável, pelo menos para mim, que no frigir dos ovos dos 365 dias as coisinhas tristes, irritantes, entediantes gritem mais do que as alegres. Contudo, flores existiram sim. E agora é hora de colhê-las e caminhar em frente, rumo ao que os próximos 12 meses trarão. E foi pensando em uma dessas coisas boas que decidi escrever. Sei que não o fiz muito, em 2012, e não farei promessas, mas aqui estou.

Convivo com pessoas das mais variadas crenças e também com aquelas que optaram por não crer. Em nome do respeito e de uma política de boa vizinhança, tenho me calado sobre aquilo que creio. Mas no início deste mês, algo muito especial me aconteceu. O dia não começou muito bom, eu estava chué, tristinha mesmo. Tenho uma amiga que é minha parceira em oração. Sempre que preciso de uma força, de uma energia a mais, peço que ela interceda por mim. E naquele dia, não foi diferente. Liguei para ela, conversamos um pouquinho e ao desligarmos minha amiga prometeu conversar com Deus a meu respeito. Eu estava muito sonolenta e decidi ir até a copa da empresa na qual trabalho, pra ver se descolava um café. Detalhe importante a ressaltar é que nunca havia feito isso. A empresa disponibiliza máquinas e com apenas algumas moedinhas voilá se “ganha” um copo de café. Mas fui até a copa. Sempre tive a impressão, e que ele me desculpe se estou enganada, que o garçom da empresa não gosta de mim. Em diversas ocasiões, falei, solicitei água ou qualquer coisa e ele nunca prestou muita atenção em mim. Então, me encontrava em uma situação totalmente fora do comum; na copa, e o garçom que até aquele dia, nunca trocara meia dúzia de palavras comigo. Entrei, pedi café, ele me atendeu gentilmente e na sequência disse:

“Você sabia que tudo o que acontece com a gente é porque Deus quer? Ele permite e nos dá exatamente aquilo que a gente precisa, que a gente merece.”

Retruquei: “Ah, por favor, não fale assim. Hoje o dia está pesado demais.”

Ele continuou: “Mas é verdade, minha filha. Se o dia hoje está difícil, você tem algo a aprender é porque a vida é como uma escada, cada dia a gente vai subindo um degrau, até conseguir algo maior, melhor. É preciso ter paciência e não perder a fé… Olha, eu não sou crente. Sou católico de nascimento, mas tenho fé em Deus. E não sei o motivo, mas me deu vontade de dizer essas coisas para você.”

Conversamos mais um pouquinho e depois voltei ao trabalho. Antes, porém, mandei um torpedo para a minha amiga perguntando se ela orara por mim. E ela me respondeu: “assim que desligamos o telefone”.

O que posso supor? O que posso entender? Escolho acreditar que a resposta do céu veio rapidamente. Minha amiga pediu forças para mim e as recebi nas palavras de um senhor que, passado o episódio, continua me tratando como se eu não existisse. É muito bom me sentir amada, acolhida, embalada por um Deus assim. Sabe, não entendo as tragédias, as mazelas, as dificuldades, mas creio sim, que elas fazem parte de um plano maior. Muito maior. Sei que nem sempre a resposta vem tão rápida, nessas horas, infelizmente, a minha fé falha e sou levada a desacreditar. Mas quando sou agraciada com um presente assim, que alegria! Quero continuar crendo, caminhando muitas vezes sem ver, mas sabendo que existe algo maior e melhor lá na frente. Convido você, neste momento de reflexão sobre o que passou e sobre como fazer melhor no ano que logo se inicia a se permitir acreditar. Pode parecer estranho, careta, ultrapassado. Mas vá por mim: funciona!

E que o novo ano venha repleto de coisas boas, sentimentos, resoluções, soluções e alegrias. Mas principalmente paz naquilo que nos permitirmos crer. Um feliz 2013!

convite